Sempre que leio os quadrinhos do André Dahmer, sorrio. Sua capacidade criativa parece inesgotável. "Em matéria de quadrinhos, tudo já foi feito", diz ele em uma de suas tiras — para logo em seguida nos arrebatar com algo inteiramente novo. E em matéria de vinho: tudo já foi dito?
É uma pergunta com a qual me debato há algum tempo. Dentro da minha bolha, parece que não há muito mais a acrescentar: as mesmas uvas, os mesmos vinhos, o mesmo Dia da Malbec outra vez. Mas, quando tento olhar para fora desse micromundo, surge outra questão: e do lado de fora? Existe alguém, além de nós, os connaisseurs, genuinamente interessado nas minúcias do vinho? Ou estamos, em grande medida, falando para nós mesmos?
Nos últimos anos, a indústria do vinho abraçou uma lógica simples: o vinho é complexo, exige educação para ser apreciado — e passou a educar. As redes sociais são bombardeadas de informação todos os dias. E o consumo continua caindo. A culpa não é apenas da geração Z, bode expiatório de sempre: millennials e boomers também têm adotado uma postura mais sóbria. Há algo mais estrutural por trás dessa queda.
O vinho, ouso dizer, tem seu próprio modus operandi — e ele vai na contramão do mundo. Primeiro, exige tempo. Não o tempo de envelhecer na garrafa, mas o tempo de quem o bebe: a conversa que se estende, a mesa que ninguém quer abandonar. Em um mundo obcecado por velocidade, isso virou desvantagem.
Segundo, exige curiosidade — e curiosidade pressupõe mistério. Onde está o mistério na vida hiperexplicada de hoje?
Além disso, o vinho pede ritual. Não o ritual mecânico de abrir uma garrafa, mas o do almoço de domingo, do jantar em família, do feriado que merece celebração. O filósofo Byung-Chul Han, em O Desaparecimento dos Rituais, mostra como os rituais funcionam como âncoras temporais — acordes de ressonância comunitária. Sem eles, perdemos as marcações que nos situam no tempo. E os rituais que restam acabam capturados pela lógica dos likes: viram conteúdo. E o conteúdo, no fim, nos isola.
e ele vai na contramão do mundo.
Sou millennial. Cresci em uma casa com jardim. Crianças soltas em jardins aprendem coisas aparentemente inúteis: contar formigas, seguir a trilha das lesmas, observar o tempo passar sem culpa. Manoel de Barros certamente passou muito mais horas assim — e tirou delas maior proveito. O ponto é que desaprendemos a parar. Perdemos o olhar destreinado de criança de que ele falava. Crescemos jantando e conversando à mesa todos os dias; hoje comemos olhando para a série, abrindo o celular por impulso a cada meio minuto — sempre disponíveis, sempre ausentes.
Para mim, o vinho sempre teve algo a mais a perseguir: uma uva diferente, um aroma inesperado, uma infinidade de mundos a conhecer. Ele entrou na minha vida pela sedução; a explicação técnica veio muito depois, quando o interesse já era genuíno e eu quis estudar de verdade.
E é curioso: ao final desse processo, meu interesse por vinhos diminuiu por um tempo. Eu estava saturado — não do vinho em si, mas da informação sobre vinho. O vinho havia perdido parte do seu mistério.
É uma armadilha conhecida. Em um mundo obcecado por performance e retorno, até os prazeres viram objetos de otimização. Outro dia, ouvindo o podcast Philosophize This!, uma pergunta me parou: "Is there anything that you do today that isn't for the return you get?" Existe algo que você faça hoje sem esperar nada em troca? A pergunta ficou me rondando por dias.
Pense na última vez em que chamou amigos sem pauta. Em que começou um hobby apenas pelo prazer de começar — um curso de línguas sem objetivo no LinkedIn, sem produtividade para medir. Quando foi a última vez que tomou uma taça de vinho olhando o jardim enquanto a chuva caía e sentiu o tempo desacelerar?
Talvez o vinho não precise ensinar nada, num primeiro momento. Talvez precise, antes de tudo, devolver às pessoas algo mais raro do que qualquer rótulo ou terroir: a experiência do tempo.
E, acima de tudo, o prazer simples de estar junto.